IN MEMORIAN HUMBERTO RODRIGUES NETO

A  poesia de lingua portuguesa perdeu um dos seus maiores autores contemporâneos;
MORREU HUMBERTO RODRIGUES NETO, O NOSSO HUMBERTO POETA.
Que Deus, na sua infinita misericórdia, acolha a sua alma.
Eugénio de Sá

Humberto Rodrigues Neto
O poeta, o escritor, o amigo
Tive o privilégio de conhecer este notável poeta e homem de letras, um brasileiro, um paulista orgulhoso da sua cidade e do seu país, e um ser humano de primeira água, como tive oportunidade de constatar ao longo dos treze anos de um são convívio quase diário que mantivemos na Internet.
Conhecemo-nos na Sala de Poetas, um site brasileiro onde comecei a editar a minha poesia, através do qual desde logo me deparei com a poesia de Humberto Poeta, como também assinava o que escrevia. Ele era, e sempre foi, um sonetista, apesar de escrever ocasionalmente outras formas poéticas. E logo me deslumbrei com a sua expressão, com a facilidade com que transmitia, pela poesia, o brilhantismo da sua veia criativa, abordando fosse que temática fosse. E sempre o fazia com uma elegância que impressionava o seu leitor.
Decididamente, era um homem culto; um autodidacta, como se confessava. Além do mais, dominava em absoluto a língua “mater” e um invejável vocabulário.
De presto deparei-me com uma faceta assaz incomum nos poetas contemporâneos; a de que era um apaixonado “parnasiano”, o que desde logo me fez sentir uma grande empatia com ele, já que, como cultor assumido de Bocage, João Penha, ou Cesário verde, também eu frequentemente me recorria das três mitologias para me exprimir poeticamente.
É sem qualquer ponta de favor que afirmo ser minha convicção que Humberto Rodrigues Neto soube ganhar a imortalidade, ou, como disse Camões; soube libertar-se da lei da morte. A sua obra faz dele um dos maiores poetas contemporâneos de língua portuguesa, e tenho a certeza que será reconhecida como tal

Chegou a sua hora de partir, aconteceu no dia 4 de Junho de 2017, contava 82 anos.
E todos nós, os seus muitos amigos, leitores e admiradores da sua obra, choram agora o seu desaparecimento, ou “desencarne”, como ele convictamente lhe chamava, como espírita que era
Adeus meu estimado amigo. Lembrar-te-ei com elevação e saudade, enquanto viver.

Eugénio de Sá
06 de Junho de 2017

 

Humberto Poeta
 ( Dedicado ao meu amigo
Humberto Rodrigues Neto )

Eugénio de Sá

No delírio de um verso inteligente
Que do mito te brota exuberante
Reconheço-te, Humberto, francamente
A culta e fina estirpe resultante

De plurais divindades recorrentes;
Do Vale do Nilo à Helênica matriz
Os teus poemas, porque eloqüentes
 Mostram-te douto, mestre e juiz

Da Deméter romana à grega Céres
Ou de Minerva, que a ambas servia
É na Mitologia que a cantar te queres
 
E não importa a musa que te guia
Se ao dares à pena o tema que preferes
Sempre o encanto escreves em poesia!

São José do Rio Preto

10 de Junho de 2008

DUETO
LA PRIMAVERA

 María Sánchez Fernández
 
Y se durmió el silencio.
Y se durmió embrujado envuelto en olas de brisas matinales.
Y se durmió en mullido lecho soñando con verdes y tibias vibraciones.
Y se durmió acunado por blancos aleteos que, en alegría salvaje, rompieron aires y bordaron alturas azuladas.
Y se durmió siempre arropado por el dulce arrullo de nanas encendidas.
Cantaron para él sublimes orfeones de trinos exaltados que, en armonioso éxtasis, le abrieron los umbrales de nuevas alboradas.
Cantaron para él festivas aguas de arroyos infantiles que, en inocentes juegos, saltaron y saltaron en alegres cabriolas y lo inundaron de risas; y lo inundaron de limpias melodías.
Y se durmió el silencio.
Y despertó la savia.
Y despertó feliz, recorriendo y anegando los caminos de arterias mortecinas y olvidadas.
Y al asomarse a la luz fue tierno brote que se abrió en estallido de colores.
Y despertó la savia.
Y con ella despertaron, exultantes, los eternos y profundos latidos de la tierra.

PRIMAVERA

Humberto Rodrigues Neto

É chegada a primavera
das manhãs de ceu azul!
Quanta claridade impera
no Brasil, de norte a sul!

Surge o sol sobre o horizonte
e em revérberos reluz,
banhando de ouro o monte,
vestindo a manhã de luz!

Como é lindo ver na roça
os loiros e amplos trigais!
Toda a vida se alvoroça
na cantiga dos pardais!

As abelhas saem em bando
pelas manhãs brasileiras,
o loiro mel retirando
das flores das laranjeiras!

O verde cobre as colinas
e a mata se enche de cores;
vemos frutos nas campinas,
e os prados cheios de flores!

E ao sol, senhor dos espaços,
que estupendas sinfonias
cantam sabiás e sanhaços,
bem-te-vis e cotovias!

Riachos correm vadios,
por sob o arco das pontes;
gargalham cascatas, rios,
e cantam todas as fontes!

É a estação dos sons, dos ecos,
das mais estranhas fanfarras:
grasnam patos e marrecos,
e a zunir põem-se as cigarras!

Entre as flores não há mídia,
pois todas têm belos dotes;
é tão graciosa uma orquídea,
quanto é formoso o miosótis!

Primavera é riso e flores,
é festa em tudo que existe
transformando em riso as dores
da alma de quem é triste!

Nenhuma outra supera
o esplendor desta estação;
vai-se o inverno, e a primavera
veste os campos de algodão!

Juntinhas, no mesmo atalho,
por entre o mato e as urtigas,
vão contentes ao trabalho
os batalhões das formigas!

À noite o jasmim recende
seus exóticos perfumes…
e a mata em festa se acende
no piscar dos vaga-lumes!

Molhado em gotas de orvalho,
o pomar tem outras cores:
há cem botões num só galho,
e em cada ramo há cem flores!

Flores, que em certo momento,
o céu julgou nunca tê-las,
mas Deus fez do firmamento
um jardim cheio de estrelas!

Oh, Deus, de amor tão profundo,
eis nossa prece sincera:
que as nações façam do mundo
uma eterna primavera!

Humberto Rodrígues Neto

 

REPRODUCIMOS LA ENTREVISTA QUE LE HIZO EUGÉNIO DE SÁ/HUMBERTO RODRIGUES NETO EL PASADO AÑO

Eugénio de Sá entrevista o seu amigo e irmão de letras; o grande poeta brasileiro Humberto Rodrigues Neto, ou Humberto Poeta, como tantas vezes assina a sua poesia.
Humberto Rodrigues Neto ( Humberto Poeta )
 
Assim fala de si o nosso entrevistado

«Nasci em São Paulo – SP, no bairro da Lapa, num dia 11 de Novembro de 1935. Sou viúvo e professo a doutrina espírita.
Minha esposa, já falecida, deu-me quatro filhos, os quais me proporcionaram quatro netos: duas adolescentes e dois rapazes. Em Novembro do ano passado fui contemplado orgulhosamente com o nascimento do primeiro bisneto.

Aprecio leitura, Internet,  Espiritismo, documentários e noticiário de TV, teatro, cinema, futebol ao vivo ou televisionado, música popular, de preferência orquestrada, cultivo horta caseira e plantas ornamentais.
Na poesia, inclinei-me para o soneto, por considerá-lo a mais bela forma de manifestação dos sentimentos humanos, embora componha, também, outros tipos de poesia, inclusive modernista, ou abstracta, que dispensam rimas ou métrica mas exigem, em contrapartida, aquela riqueza de metáforas que só os grandes poetas conseguem produzir.
Participei, com outros poetas, da VI Antologia “Palavras de Poetas”, da editora “Physis”, na qual inseri 7 sonetos. Obtive prémios no I e II Concurso Nacional de Poesia ”Menotti Del Picchia”, bem assim  no XI Certame Cultural de Poesias da Secretaria de Educação de Guarulhos – SP, e no Concurso de Poesias do C.T.A., de São José dos Campos – SP.
Na Estância de Poesia Crioula, do Rio Grande do Sul, obtive o 1º. Lugar, com troféu e medalha entre 176 concorrentes no 3.o Concurso Nacional dos Sonetos com a apresentação do soneto abaixo.

CONTRA-SENSO
Humberto Rodrigues Neto

Quem dera, oh… Deus, o ser humano fosse
mais fraternal e mais cristão, de sorte
que não herdasse o instinto de Mavorte,
contrário à vida, que é tão bela e doce!

Quanta alma pura fez de Ti o suporte,
e ao mal que nos judia contrapôs-se!
Quanta alma vil, de Ti distante, pôs-se
a criar engenhos de tortura e morte!
                                                           
 Estranha grei de génios e estafermos,
num conúbio de crentes com pagãos,
eis o que é o homem nos exactos termos!

Sujeito a instintos nobres ou malsãos,
concebe a Ciência pra salvar enfermos
e inventa a Guerra pra matar ossãos!

— oOo —
Na AVPB – Academia Virtual de Poética do Brasil, dirigida por Olga Kapatti, editei meu primeiro e-book: “Rabiscando Rimas”,  e no site Arte e Poesia, de Teka Nascimento, lancei meu segundo e-book:  “Metrificando Sonhos”. Por gentileza de Regina Coeli, com a valiosa colaboração da saudosa Ilka Vieira e de Anna Müller, foram editados os seguintes  e-books: “Solfejando Sonetos”, compostos por mim e a autora em forma de duetos. Desse mesmo trio de prestigiosas poetisas fui aquinhoado, depois, com os e-books “Revérberos” e “Degustando Trovas”.
Fora da poesia, tenho alguns contos, diversas crónicas, estudos comparativos que faço entre o Espiritismo e as demais religiões, e duas peças teatrais: “Extorsão” e “Sempre Há Sol Depois da Chuva”.
Eis aí um rápido escorço do que sou, ou, audaciosamente, daquilo que ainda pretendo ser como poeta.»

ES:
Já nos conhecemos há alguns anos. Sei que por trás do poeta que és, há um homem detentor de uma sólida cultura, dominando uma dialéctica rica em vocábulos, que mostra o teu absoluto domínio da complexa língua portuguesa.
A que se devem todas estas exponenciais capacidades, admiradas pelos teus pares, amigos e leitores?

HRN:
Com cinco ou seis anos de idade, sentia-me empertigado quando meu pai trazia para casa o Gibi e eu via as figuras conversando sem poder decifrar o conteúdo dos diálogos que mantinham.
Pacientemente, ele ou minha mãe liam os textos para mim, pois sentia em meu íntimo uma frustração quase mórbida de não saber ler e assim entender, por meus próprios recursos o que diziam os personagens.
Um dia pedi a minha mãe que me ensinasse a ler e escrever. Mesmo inculta que era, deu-se ao paciente trabalho de me iniciar, desde o  a, e, i, o, u, continuando depois pelo abecedário de A a Z.
Próximo dos 7 anos eu já conseguia ler e escrever, e quando fui para o Grupo Escolar a professora, D. Luzia, espantou-se ao ver-me ler e escrever. Ficou encantada e me pediu para auxiliá-la nessa tarefa.
Enquanto ela abordava  um aluno, eu instruía outro, o que me enchia  de orgulho e satisfação, fazendo aumentar ainda mais o meu desejo de ler tudo que encontrasse, tornando-me, assim, aquilo que denominamos autodidades
ES:
Sei que tens raízes portuguesas e certamente terás também sangue português a correr-te nas veias. Mas diz-nos, Humberto; há nos teus ancestrais tradições poéticas e/ou literárias, gente com talentos firmados nas letras que hajam projectado nos teus genes esse dom maior que é o talento poético que te é inerente?
HRN:
Orgulho-me sim, e bastante, de minhas raízes portuguesas e tenho em Portugal um contingente apreciável de parentes, os quais só conheço através de raríssimas trocas de cartas. São, na sua maioria, pessoas comuns do povo, com uns ou outros exercendo funções de comerciantes. Mesmo assim, soube, por alto, que dois primos frequentaram e se formaram na Academia de Coimbra e não devem ter-se furtado a práticas literárias, mas pouco sei sobre isso. Quanto à parentela lusa com que privo por aqui, a maioria não difere, em linhas gerais, do mesmo padrão de vida dos que vivem além-mar. Temos até um advogado, alguns professores, um químico, mas não me consta tenham tido alguma inclinação para as letras.
ES:
Todos te reconhecem um ser cordial, dono de um espírito vocacionado para o humanismo e para a solidariedade, que naturalmente também se reflectem na tua poesia. Queres falar-nos disso?
HRN:
Nem sempre, meu caro amigo, deves considerar-me como um exemplo de virtudes e cordialidade. Às vezes também expludo ante alguma contrariedade. Será que devo tais arroubos ao fato de ter nascido sob o signo de escorpião?  Não sei.
Todavia, tenho um coração que não vale nada, Eugénio, pois quebra-se à toa quando presencio maus tratos à criança, agressões à mulher, desprezo aos humildes, desrespeito aos idosos, preconceitos raciais, truculência exagerada em acções policiais, depredações à natureza e ao meio ambiente, desonestidade da grande maioria dos homens que nos governam, e demais falhas a que estão sujeitas certas pessoas pelas imperfeições naturais da alma humana.
Se fôssemos todos perfeitos, não teríamos sido desterrados para este planeta de provas e expiações!
Num dos tópicos adiante terei a oportunidade de me distender um pouco mais sobre o enunciado acima.
ES:
Nasceste e vives, desde sempre, numa das maiores cidades do mundo, e sei que amas profundamente a “tua” S. Paulo.
Em que medida este facto te influenciou e te influencia como escritor e poeta?
HRN:
Provenho de família humilde, de um pai ferroviário, pouco letrado e de uma mãe que o ajudava nos encargos domésticos  como costureira, a confeccionar roupas para as lojas dos sírios e de judeus, serviço que aqui denominamos de “carregação”.
Não tinham, pois, como aplacar a minha sede de comprar livros.
Ora, sendo  São Paulo  a maior cidade do Brasil, é pródiga de bibliotecas municipais muito bem sortidas.
Recorria então a elas, quando ali permanecia por longo tempo a apreciar os monstros sagrados de nossa boa literatura brasilusa.
Qundo comecei  trabalhar como simples “office boy”, isto com 14 anos de idade, meus rendimentos embora poucos, já me permitiam adquirir um ou outro livro nos denominados “sebos”.
Há a considerar-se, outrossim, que a cidade onde vivo ainda não tinha se transformado nessa megalópole de hoje.
Devo à Paulicéia muito do que aprendi sobre poesia e literatura.

ES:
Na tua “nota biográfica” acima, falas dos teus gostos e “hobbies”. Por outro lado, sei que intervéns no ensino dos fundamentos espíritas como docente.
Agora, na tua condição de aposentado, certamente algumas destas actividades preenchem parte significativa no teu dia-a-dia. Usando da tua capacidade de síntese, podes especificar melhor o que hoje mais te gratifica espiritualmente?

HRN:
Sim, Eugénio, é verdade.
Ministrava a doutrina espírita a classes de 20 a 25 aprendizes, bem como proferia palestras não só no Centro para o qual  trabalhava, como também nos periféricos e, modéstia à parte, era um dos oradores mais apreciados, pois contava com o volume e a califasia da voz, qualidades adquiridas em  cursos de oratória.
Hoje, já idoso e doente, tive de me abster de tão apreciados misteres.
Assim sendo, o que hoje mais me gratifica espiritualmente, prezado amigo, é a divulgação que faço do Espiritismo mercê dos poemas que frequentemente divulgo, como os que abaixo seguem:

CÂNTARO

Com que amor a campónia vai, cedinho,
com o jarro à fonte, a enchê-lo de água pura!
E volta, e a distribui, toda candura,
aos seus, na paz tranquila de um ranchinho.

Faz do exemplo trivial dessa figura
um rumo a palmilhar no teu caminho;
em ânfora de amor, não de água ou vinho,
converte essa tua alma hoje insegura.

Nos vácuos desse cântaro, hoje frios,
despeja o bem que possas e vê quanto
é lindo o amor sem pompas e atavios!
 
Que o amor que dele vertas seja tanto,
que dê pra encher mil cálices vazios
de amargos corações em desencanto!

— oOo —

FICO PENSANDO…

Se fôssemos um dia encarregados
de as fontes extirpar da imperfeição,
jamais nos sentiríamos inclinados
a destruir o próprio coração!

* *
Tememos se um corisco dilacera
o escuro céu, fosforescendo os ramos,
mas esse raio é o mesmo que incinera
os miasmas do ar que respiramos!

* *
Materialismo: dele estão bem perto
dois nadas a girar no mesmo fulcro:
toda a aridez sem termo de um deserto
e o gelado silêncio de um sepulcro!

— oOo —

DEMÔNIOS

Dizem muitos irmãos, embora idóneos,
que os mortos não conversam com ninguém,
e aqueles cuja voz ecoa do além,
espíritos não são, porém, demónios!

A essas mentes, à lógica arredias,
o encontro no Tabor nada traduz:
não vêem Cristo a falar, em plena luz,
com a alma de Moisés junto à de Elias!

Pra se arvorar da Bíblia em corifeus,
ler os ditos de João faz-se mister:
“Não deis ouvido a espíritos quaisquer,
mas vede, antes, se provêem de Deus!”

E vão cumprindo insípido papel
de Genebra a Pequim, do Rio a Istambul,
sem lembrar-se de En-Dor, onde Saul
aparece em pessoa a Samuel!

Se ao sabor de fraquíssimos neurónios
respeitam a Moisés, cultuam Elias,
e  seguem  de Samuel as profecias,
mais não fazem que crer nos seus demónios!

— oOo —
ES:
Como é comum dizer-se; é dever de cidadania de cada um de nós, não só pensar a politica mas intervir nela, na medida do possível e do razoável. Numa palavra; sermos cidadãos interessados e participantes na vida da comunidade a que pertencemos.
Acontece, que ambos escrevemos para muitos públicos, embora limitados às audiências que contemplam as nossas edições internéticas.
Mesmo assim, o que escrevemos para além da poesia, mormente em crónicas ou artigos de opinião, pode influenciar a forma de pensar de terceiros.
Queres comentar?

HRN:
Não tenho quaisquer dúvidas sobre isso, mormente quando o tema gira em torno de desmandos políticos, religião, desportos, crimes escabrosos, escândalos com artistas e pessoas de projecção, ocorrências essas que fazem as delícias não só dos cochichos entre comadres, como também, de modo especialíssimo, nas hostes sempre à espreita da classe jornalística, da qual participaste por longos anos e sabes de sobejo como as coisas funcionam.
Claro que nem sempre podemos delas participar activa e fisicamente em se tratando de passeatas de protesto contra
deslizes e arbitrariedades do governo, de firmas, de sociedades de prestígio, e até mesmo de poetas e escritores que usam de linguagem menos refinada em textos e poemas eróticos.
Mas podemos intervir, sim, mediante os recursos que nos facultam a internet, quando externamos publicamente nossa contrariedade através da emissão de simples e-mails ou do facebook. Sabemos, de sobejo, que a revolução francesa teve início com simples protestos esparsos pelo país e depois culminaram numa horda de camponeses revoltados que cercaram o palácio, não para invadi-lo, mas apenas para pedir mais pão. É de se destacar, nesse acontecimento, a participação maiúscula dos poemas do grande poeta André Marie Chénier!
Em alguns de meus poemas não deixo, vez por outra, de fazer a minha parte, como se vê no poema abaixo:

REPTO

Parlamentar venal que tens um posto
no Congresso por erros de quem vota,
és um xerox do eleitor idiota
que pela fraude tem teu mesmo gosto!

Do roubo e do conchavo a fazer rota,
e às vis cavilações sempre disposto,
és do país o carcinoma exposto
que os frágeis órgãos da nação esgota!

Fraudando as verbas que o teu bolso come,
pouco te importa morra o povo à fome,
alheio a esse mandato que avacalhas!

Que venha o relho, a ditadura, enfim,
varrer-vos por patifes, pondo um fim
nessa imunda caterva de canalhas!

— oOo —

RENASCIMENTOS
Humberto Rodrigues Neto

Não lances o acicate das censuras,
nos que duvidam dos renascimentos,
mas exorta-os a ler os argumentos
que constam das sagradas Escrituras.

Sabia o Cristo, o nosso Irmão Maior,
do resgate dos crimes ancestrais,
pois diz ao enfermo: “Vai, não peques mais,
pra que não te aconteça um mal pior”!

E a Nicodemos, sobre tal renovo,
lembra Jesus, no seu falar amigo:
“E não vos espanteis do que vos digo,
de que é preciso que nasçais de novo”!

E diz mais, do Tabor tirando a vista,
a João, Pedro e Tiago: “Elias já veio…”
do que inferem, sem véu de titubeio,
que Elias renascera em João Batista!

— oOo —

ES:
Vamos então entrar mais fundo na especialidade; a tua poesia. Conta-nos, Humberto; quando, como, onde e porquê começaste a pensar e a escrever poesia, e o que ainda hoje te move a fazê-lo?
HRN:
Inicialmente devo dizer que os poetas, pintores, escultores. literatos, cantores e demais cultores das lides artísticas já nascem feitos, ou seja, trazem indelevelmente gravado  no seu perispírito tudo aquilo que aprenderam em sucessivas reencarnações.
É por isso que está se tornando comum vermos crianças de tenra idade dedilhando um instrumento musical com extrema maestria ou resolvendo, de cabeça, complicados cálculos aritméticos e até algébricos!
Desde a mais tenra idade, quando ainda frequentava o Grupo Escolar, embevecia-me a ler aquelas trovas simples da Cartilha em uso na época. Quando passei para o Ginásio e comecei a ler não só os poemas como as crónicas daqueles autores clássicos, foi como se eu despertasse de um letárgico sono! Aquilo sim, era poesia de verdade ou crónicas de deslumbrar os sentidos e encantar a alma!
Não houve jeito… Invadiu-me a vontade incoercível, não de plagiar-lhes algo da obra, mas de assimilar-lhes a técnica e o refinamento com que compunham os seus trabalhos.
Foi assim que me tornei poeta.
ES:
Sei que apostas na poesia clássica e que das várias formas de expressão poética preferes o soneto. Podes explicar porquê? – E, já agora, quem mais influenciou, e, provavelmente, ainda influencia a tua poesia?
HRN:
Conforme consta da primeira parte desta entrevista, inclinei-me para o soneto, por considerá-lo a mais bela forma de manifestação dos sentimentos humanos, embora componha, também, outros tipos de poesia, inclusive modernista, ou abstracta, que dispensam rimas ou métrica mas exigem, em contrapartida, aquela riqueza de metáforas que só os grandes poetas logram compor..
Muitos dos que se consideram poetas, ao responderem à pergunta que acima formulaste, costumam dizer que a sua poesia é própria, personalíssima, não tendo sofrido a influência de quaisquer outros autores. De duas uma: ou estão mentindo ou verifica-se, pela pobreza de seus poemas, tratar-se de meros escrevinhadores de versos, pois não acredito que os bons poetas permaneçam indiferentes à poesia de um Camões, de um Bocage, de um Fernando Pessoa, de um Guilherme de Almeida, de um Olavo Bilac ou de um Casimiro de Abreu, isto apenas para citarmos alguns dos clássicos da poesia lusófona. Duvido não tenham tentado, pelo menos no início de suas actividades poéticas, dar às suas produções a força semântica e emocional dos belos poemas que eles nos deixaram.
Como não podia deixar de ser, também fui influenciado pelos clássicos, não com a intenção de plagiá-los, mas de procurar assimilar-lhes a beleza técnica que impunham às suas produções.
ES:
Conhecemo-nos na tela dos nossos computadores, por via da internet, onde ainda hoje editamos a nossa poesia. Continuas a considerar certo, e suficientemente gratificante este meio (único) que utilizas para divulgar a tua poesia? 

HRN:
Em todas as vezes que levei a um editor os meus poemas na esperança de vê-los publicados em livro, sempre concordaram que minha obra poética estava muito bem feita e merecia, sim, a sua publicação em papel.
Todavia, o orçamento que me apresentavam elevavam-se às raias do absurdo, totalmente fora de minhas possibilidades financeiras, problema esse que também enfrentaram diversos poetas que consultei a respeito.
Por não contarmos com qualquer apoio da Academia Brasileira de Letras, nem do apoio financeiro eventual de alguma firma para custeio de tal despesa, não nos resta outra alternativa se não a de divulgarmos o nosso trabalho através da Internet.

ES:
Vejo que a tua bibliografia se cinge – tal como a minha – a alguma obras virtuais; os conhecidos e-book e a alguns vídeos, estes porventura alojados na grande plataforma youtube.
Tenho as minhas próprias opiniões sobre edições em papel, conhecidas como “edições de autor”, mas gostaria que nos falasses do que pensas sobre isso.

HRN:
Já comentei acima sobre os óbices que nos impossibilitam a edição de nossos poemas em papel. Suponhamos que, vencidos todos os sacrifícios e os percalços inerentes ao problema, realizemos esse sonho de editar um livro, mas pergunto: quem irá lê-lo? Ninguém, a não ser os amigos que brindemos com um exemplar. Mas se o colocarmos em forma de e-book na Internet a sua publicidade se estenderá não só ao seu país de origem mas abrangerá  também outros rincões do mundo, queiram ou não os editores e a Academia Brasileira de Letras.

ES:
É exactamente essa a razão que me faz, em absoluto, estar de acordo contigo; a não garantia de uma digna divulgação da nossa obra. E assim sendo, outra pergunta me aflora o espírito:
Em Portugal são em reduzido número, mas no teu país existem múltiplas Academias Literárias, e outras similares instituições. Nalgumas das vossas principais cidades, as respectivas cadeiras são ocupadas por escritores e/ou poetas ditos “consagrados”. Concordas com as regras dessa selecção? Consideras justos os critérios vigentes, ou achas que tudo se faz de acordo com base em escolhas mais ou menos duvidosa?

HRN:
Por serem as Academias de Letras círculos fechadíssimos de participantes tão desejosos de compartilhar o seu “dulce farniente”, as escolhas  recaem, no geral, em candidatos mais ou menos duvidosos, conforme dizes acertadamente.
Não é incomum nos surpreendermos diante da nomeação de poetas bisonhos, bem inferiores às centenas  de outros que conhecemos  na Internet. Parece-me que não há leis regulamentando a matéria, mas quero crer que ninguém se atreveria a obrigar tais Academias, antes da escolha, a dar uma simples vista d’olhos no magnífico trabalho desenvovido por poetas integrantes da Internet.
Então, para fugir à impenetrabilidade de tais feudos, resolvemos nós mesmos criar as nossas próprias Academias de Letras particulares, providência que não deve ter agradado nada os modorrentos dirigentes das Academias oficiais.

ES:
E, por último, conta-nos como vês actualmente o panorama da poesia brasileira e lusófona; que perspectivas tens para um futuro próximo?

HRN:
As minhas perspectivas são as mais optimistas possíveis, pois, com o advento da Internet, é que podemos ver quantos poetas bons possuem o Brasil e Portugal! Esses sim, deveriam constar obrigatoriamente das relações de candidatos adrede preparadas.
Em não lhes conferindo essa oportunidade, esses estrábicos proprietários das Academias oficiais não percebem que estão fazendo um grande mal à cultura dos países que superintendem, porquanto estão acostumando os amantes  da boa literatura a lê-la apenas nos sites específicos da Internet, e não mais nas obsoletas estantes das bibliotecas públicas. Oxalá esses intocáveis “imortais” percebam o grave  erro em que estão incidindo

ES:
Queres acrescentar algo ao que aqui nos contaste?

HRN:

Eu costumo dizer que a inteligência de um homem se mede mais pelas perguntas que faz do que pelas respostas que dá. Não é sem razão, pois, que te considero um sagaz e competente entrevistador.
Permito-me agora, que brinde aos leitores, expondo alguns de meus sonetos:

DESFECHO

Sei que é preciso, deste amor suspeito,
esperar dias hibernais, tristonhos,
e estar consciente de cruciais, medonhos
e atros suplícios a ferir-me o peito!

Sim, é preciso que eu, a teu respeito,
não borde anseios por demais risonhos,
nem ponha em altos pedestais meus sonhos,
nem sonhe o Éden no teu níveo leito!

Se houver o adeus final de um sonho ardente,
que eu me acostume a não te ver jamais
e viva apenas de um idílio ausente…

Fins de romance…Tão comuns e iguais…
a flor-mulher que amamos loucamente,
que um dia nos deixa… E que não volta mais!

— oOo —

GALÁCTICA
Ah, vem, “Estrela”, dá-me a tua mão,
galguemos as alturas do infinito!
Vem sopitar a ânsia em que me agito,
de me espraiar contigo na amplidão!

Fujamos deste orbe tão restrito,
que algema-nos cativos ao seu chão!
Ultrapassemos  Júpiter… Plutão…
ah, vem flanar no vôo em que levito!

As nebulosas… Vês? Que lindo é tê-las
e assimilar-lhes essa estranha osmose
de escumilha e cristais em simbiose!

Luminárias de Deus! Nas mãos contê-las,
e valsarmos, depois, na apoteose
de um festival de cem bilhões de estrelas!

 
— oOo —

MIGALHAS

Que mais desejas, afinal, que eu faça
pra ter por meu o que de ti não tenho,
se já cansado estou de tanto empenho
de haurir de ti a mais suprema graça?
A quanto tempo mendigando eu venho
um pouco mais que esta ventura escassa!
Do amor apenas pingos pões-me à taça
que eu sorvo ao jugo de pesado lenho!

Somente a um outro, nas liriais toalhas
da mesa de Eros serves tua paixão,
mesa em que, pródiga, teus bens espalhas!

E ali enjeitado, a farejar o chão,
o meu amor vive a lamber migalhas
que tu lhe atiras qual se fora a um cão!

— oOo —

LÁGRIMAS

Ah… quanta vez o pranto derramamos
por coisas fúteis ou paixões banais;
quantas vezes em queixas lamentamos
a perda de valores materiais.

Muito sofremos e também choramos
em lacrimosos e doridos ais
pelos que um dia toda a vida amamos
e aos quais no mundo não veremos mais!

Porém, se a mágoa turva o teu olhar,
tira de ti tão depressivo enleio
doando aos tristes o teu dom de amar!

E então verás, nesse teu novo anseio,
que só não encontra tempo pra chorar
o que o gasta a enxugar o pranto alheio!

 
— oOo —

MARIA DAS FLORES


A orquídea que um dia foi na mocidade
em dias de fastígio e de ventura,
Maria ainda conserva com amargura
no cofre imorredouro da saudade.

Do lírio, então em plena formosura,
guarda apenas no ollhar a suavidade;
hoje tímida violeta fê-la a idade,
ou um miosótis sem viço e sem candura.

Maria agora traz o olhar vermelho
das lágrimas choradas frente ao espelho,
ante um rosto que franze e se esfacela!

Pranto de perda da falaz vaidade,
tributo amargo da fatalidade
de um dia ter sido tão formosa e bela!

— oOo —

NADA!

(à minha esposa, in memorian)

Ela se foi, Senhor! E tão distante
vai ficando o meu tempo de ventura…
Em mágoa acerba vou seguindo adiante,
sucumbido a esta cármica amargura!

Até a floreira, outrora luxuriante ,
que ela cuidava com gentil candura
mirrou, numa apatia agonizante,
solidária com a minha desventura!

Oh! Meu Deus, que sois justo e onipotente,
dispensai-me um minuto de bondade
e ouvi da minha prece o tom plangente:

se sentes quanto punge esta saudade,
afastai-a, Senhor, da minha mente,
ou dai-me ao lado dela a eternidade!

— oOo —

TEATRO DA VIDA

Assim como acontece no teatro,
a vida também guarda a mesma média,
pois mescla ao riso da alegria nédia
os dissabores de um momento atro

Da vida somos, pois, o anfiteatro
de co-partícipes de uma comédia,
ou dos distúrbios de uma vil tragédia
que às vezes nos atinge a três por quatro.

Mas o destino, em condição expressa,
execra o actor que pouco se interessa
no aprimorar as suas encenações.

Da vida o palco não faz concessões,
pois Deus, que é o próprio Director da peça,
não quer saber de artistas canastrões!

— oOo —

ES:

Obrigado, Humberto, por me teres concedido esta entrevista, e assim me haveres permitido contar tanto de ti aos leitores da LunaSol, que certamente vão ficar encantados por conhecer-te.